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2 de jun. de 2011

Ao encontro com a sombra

Escrito por Robert Bly Qui, 23 de Julho de 2009 18:14

A sombra, tal como Robert Bly refere, pode ser comparada a uma comprida
sacola que arrastamos atrás de nós.
Começamos a encher a sacola desde a infância. Logo com 1 ou 2 anos, a
criança é como se fosse um arsenal de emoções e possibilidades de atitudes
diversas, esperando espalhar esse mundo em todas as direções. Assim que os
pais começam a reprovar alguns comportamentos dizendo frases como “um bom
menino não bate no irmãozinho”, “pare de correr”, “fique quieto”, "engula o
choro" as crianças passam a buscar, então, um comportamento que seja
condizente com o que os pais querem e, para tanto, reprimem aquela energia
de raiva, ou de inquietação, que poderiam significar prazer e reprimem os
impulsos espontâneos... As que não reprimem, apenas sentem-se culpadas por
ter “agido mal”.

Com o tempo as emoções genuínas e sua expressão começam a ter que ser
julgadas e separadas em certas ou erradas, boas ou más, e a sacola vai se
enchendo mais e mais, pois, como observa Robert Bly:

*“Atrás de nós temos uma sacola invisível e, para conservar o amor de nossos
pais, nela colocamos a parte de nós que nossos pais não apreciam.” *

Além dos nossos pais, nossa experiência na escola acaba por ajudar a encher
mais ainda nossa sacola, quando ouvimos “Meninas inteligentes não devem
fazer assim", ou “quem sai dos padrões de aparência física tem que mudar",
aí novamente estamos diante dos valores que não foram construídos a partir
das nossas escolhas e verdades...

São marcados a partir das referências das figuras que temos como modelos,
porque é importante ter o afeto delas. Por exemplo, é normal uma criança
sentir raiva, mas diante dos valores que aprendeu de que “é feio ter raiva”,
se sente culpada, diminui a importância do sentimento diante de muitas
situações e o coloca rapidinho na sacola, porque não quer perder o amor da
mãe.

Assim, vamos arrastando nossa sacola pela vida afora, inicialmente quando
levamos as referências de valores dos nossos pais, e mais tarde quando
associamos estas já apreendidas às referências da sociedade apreendidas na
escola, no convívio com nossos amigos, grupos sociais e religiosos.

Diante desta sacola o conflito aparece, justamente, porque nem tudo que
aprendemos ser “errado ou mau” são, na verdade, essas duas coisas. E isso é
que faz com o que o material da sacola comece a “cheirar mal” e a nos
incomodar, porque de tempos em tempos, percebemos sinais do poder e da
importãncia que essas emoções escondidas poderiam ter em nossa vida.

A dimensão da sombra é gigantesca nos adultos. A sacola aumenta
proporcionalmente à quantidade de censura relativa aos nossos sentimentos
naturais e espontâneos.

Energias naturais do ser humano tais quais sexualidade, impulsividade,
agressividade, raiva, ódio, revolta são, normalmente, colocadas na sacola
durante toda uma vida.

Aqui existe outro elemento: quanto mais guardamos essas energias, mais e
mais intensas e latentes se tornam. Ficam como se fermentassem lá dentro de
nós, e quando não colocadas para fora, acabam gerando a mais ampla gama de
doenças e sintomas.

Conforme os anos passam e este conteúdo sombrio cresce, tende a ser maior a
dificuldade de entrar em contato com ele. Por isso, muitas pessoas quando
começam a envelhecer, sentem muito medo de abrir a sacola, como se o
conteúdo dela fosse invadir sua vida e causar danos, mas na verdade esse
conteúdo já os assombrava há tempos...

*Existe muito medo dentro de nós de olhar para o que já foi guardado.*

Por isso enxergamos muitas dessas coisas nos outros.

“Peça para um amigo lhe descrever o tipo de personalidade que ele acha mais
desprezível, mais insuportável, mais odiosa e de convívio mais impossível;
ele descreverá as suas próprias características reprimidas – uma
autodescrição do que é absolutamente inconsciente e que, portanto, sempre o
tortura quando ele recebe seu efeito de uma outra pessoa. Essas mesmas
qualidade são tão inaceitáveis para ele precisamente porque elas representam
o seu próprio lado reprimido; só achamos impossível aceitar nos outros
aquilo que não conseguimos aceitar em nós mesmos. Qualidades negativas que
não nos incomodam de modo tão intenso ou que achamos relativamente fácil de
perdoar , em geral não pertencem à nossa sombra.”

Mas, quando estamos procurando nos conhecer realmente e amadurecer
emocionalmente, a sacola precisa ser aberta para liberarmos a energia desses
sentimentos e emoções que armazenamos durante anos.

Esta sacola pode ser aberta, percebida e assimilada, o que, por sua vez,
propicia que seu potencial destruidor e conflitivo possa ser reduzido e a
energia vital que estava aprisionada possa ser liberada, gerando mais
tranqüilidade e equilíbrio emocional.

Nossa “pressão interna” ou “fermentação” irá diminuir.

Conhecendo o que guardamos inconscientemente por tanto tempo, podemos fazer
escolhas mais sensatas a respeito de novamente empurrar ou não para nossa
sacola sentimentos que precisam ser compreendidos e aceitos como parte de
nossa natureza humana.

Assim, fica mais simples celebrar o que é espontâneo e natural na vida, fica
mais simples exercitar nossa possibilidade de SER!

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