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14 de fev. de 2014

Uma história cotidiana de angústia, desencontro, amor e reencontro

Por Ligia Moreiras Sena

O celular tocou e eu atendi.
Fui empurrando o carrinho de compras em direção às gôndolas de meu interesse quando ouvi gritos muito nervosos de criança. Choro, misturado com grito, misturado com raiva, misturado com desespero. Todos pararam o que estavam fazendo em função dos gritos.
Tentei me concentrar no telefonema. Não consegui. Encerrei a conversa dizendo que ligava na sequência e fui atrás.
Eu sou daquele tipo de pessoa louca que, ouvindo gritos, vai atrás para ver se pode ajudar de alguma maneira. Não consigo passar por gritos como se nada fossem, como se ali não houvesse alguém sofrendo ou com problemas.
Fui.
Parei no corredor e consegui avistar, lá longe, muitos metros adiante, uma mãe e uma criança.
A criança, um menino aparentando entre 5 e 6 anos, estava sendo puxado pela mãe, que aparentemente falava em um celular, com rosto também aparentemente envergonhado pelo escândalo do filho. Ela no celular e o menino se esgoelando, gritando coisas como: "Para mãe, para mãe!". Ele gritava isso repetidamente e, por ver que não recebia resposta, entrou em um surto nervoso onde sequer se conseguia ouvir o que dizia. Era muito grito, muito choro, muito desespero. E ela, visivelmente consternada pelo escândalo, focava toda sua atenção no celular, como se aquela suposta conversa fosse capaz de tirá-la daquela situação.
Ela caminhava a passos muito rápidos, puxando o garoto pela mão, que ia sendo arrastado, gritando, olhando para trás, com o braço esticado, como se quisesse continuar no mercado. Não conseguindo puxá-lo sem arrastá-lo literalmente pelo chão, então deu duas bofetadas na cabeça dele, puxou-o pela orelha e pelo cabelo e aquilo e nada pareceu a mesma coisa: o guri continuava gritando, nervoso e desesperado. Deu dois fortes tapas e puxou sua orelha como se nada fosse, ainda ao telefone. Então simplesmente guardou o aparelho - e foi quando percebi que realmente não havia ligação nenhuma, era uma "fuga social", uma forma de fugir "socialmente" daquele momento desagradável -, puxou-o por uma das pernas e por um dos braços e foi carregando o filho assim. Que continuava a gritar.
O supermercado fica dentro de um shopping.
Eles já haviam saído do mercado e caminhavam pelo corredor do shopping.
Eu também.
Larguei meu carrinho e fui atrás, observando tudo.
Sinceramente? Temia pelo menino. Era visível que ela perderia o controle a qualquer momento e viria com tudo pra cima dele. Eu simplesmente não podia pensar em ir embora e saber aquele menino em risco. Fiquei lá. Enxerida? Bisbilhoteira? Vigia da moral e dos bons costumes? Não. Nada disso. Não sou nem um pouco moralista, nem acho que as pessoas devem se meter na vida dos outros. Exceto quando os outros estão correndo risco. Crianças, especialmente. Sim. Sou aquele tipo de pessoa "psicopata" (já fui chamada assim; aliás, já fui chamada de tantos nomes que, se eu contasse, poucos acreditariam...) que ao ver um marmanjo ou uma marmanja bater em criança faz questão de constrangê-lo. Porque violência contra criança, meu caro, minha cara, não dá. Violência contra criança, meu camarada, simplesmente não dá. Não é porque temos filhos que temos direito de agredi-los. E existem leis que protegem os menores. E uma de nossas funções enquanto cidadãos ativos e conscientes é, também, a de protegê-los. Então, realmente, não sou daquele tipo de cidadã que assiste a tudo de camarote com o dedo (e a língua) em riste para criticar, julgar e apontar, enquanto fica bem sentadinha em sua cadeira estofada sem fazer absolutamente nada. Ou enquanto há, atrás de si, um passado de descaso e/ou agressão com os próprios filhos, mas, ainda assim, sentindo-se apto a criticar o outro.
Então a mãe se dirigiu a uma loja, arrastando atrás o filho. Gritos e mais gritos. Bastante constrangida, mas ignorando-o sumariamente. Ela, então, procurou algo em uma prateleira, achou - o menino gritando -, colocou na cesta - o menino gritando -, e seguiu em frente.
Eu atrás. Pronta para interferir no primeiro golpe a ser desferido contra ele (não, primeiro não; segundo ou terceiro; ela já havia esbofeteado o garoto, quando eu ainda não havia decidido segui-los).
Então ela foi para a fila do caixa. Segurava pelo braço o menino, que estava atirado ao chão, vermelho de tanto gritar, as lágrimas correndo em rios.
Na fila, na frente deles, uma moça com três filhas maiores. Em função dos gritos, a mãe das três filhas se virou e deu de cara com a mãe do menino. Que, ao fitá-la... desabou a chorar...

Colocou a mão no rosto e teve a maior crise pública de choro que eu já havia presenciado...
Largou a mão do menino.
Ele gritava, ela chorava. Uma situação muito difícil. De dar pena mesmo.
Como os gritos do garoto pioravam a cada momento, a mãe das três filhas foi acudi-lo. E ficou lá a mãe do garoto. Chorando. Chorando muito. Sozinha.
Aí eu não aguentei mais e fui...

Enquanto a mãe das meninas acalmava e amparava o menino (dizendo coisas como: "Querido, olha pra mim, olha aqui pra mim. Você quer tomar um sorvete? Vamos, vamos levar a mamãe pra tomar um sorvete?"), eu fui até a mãe dele, coloquei um braço em volta de seus ombros e apenas disse: "Você quer tomar uma água, ou um suco? Vamos? A gente vai com vocês...".
Ela chorava muito... E simplesmente disse "Quero...". Quase sussurrando... Sem nem me olhar nos olhos. Virei-me para a moça das três filhas e disse: "Vamos todos?".
A mãe das meninas, então, pediu para a filha maior permanecer na fila do caixa, pagar e encontrá-la no café em frente. A mãe do menino deixou cair a cesta com a única coisa que havia separado. A mãe das meninas deu a mão ao pequeno. Eu segui em frente com a mãe dele e a pequena turma atrás. Todos da fila nos olhavam.
Então sentamos todos em uma mesa. A mãe das meninas pediu uma água, um sorvete para o pequeno e dedicou-se exclusivamente a ele.
A crise de choro havia cessado, mas os soluços ainda persistiam.
Um silêncio constrangedor de nossa parte - mãe dele e eu.
E foi quando ouvimos a mãe das três filhas dizendo:
"Mas por que você estava chorando tanto? Você quer me contar?"
Ao que ele respondeu, entre soluços:
- "Meu Hot Wheels caiu lá no mercado..."
- "E você quer tentar procurá-lo?"
- "Quero...".
Então a moça das três filhas se virou para a mãe dele e disse:
- "Ele trouxe um Hot Wheels?"
- "Sim, trouxe..." - sussurrou a mãe, com uma expressão que nem sei definir... - "Mas eu não sabia que tinha caído..."
- "Tudo bem por você se eu for com ele até lá, tentar achar? Minhas filhas ficam aqui, com vocês". - disse a mãe das três filhas, dando a entender que "Ei, confie em mim. Estou confiando em você".
- "Tudo bem... Pode ir sim".
E lá se foi a mãe das três filhas com o filho da outra mãe.
Eles se foram e ficamos nós.
Então perguntei a ela se queria conversar. Disse que tinha visto tudo, todo o choro, todos os gritos e que vi o quanto ela estava se sentindo envergonhada, mas que não tinha motivo nenhum pra se envergonhar, porque todo mundo que tem filho consegue, pelo menos um pouco, entender. E que quem não entende e prefere julgar, na verdade, não faz a menor ideia do que é criar uma criança.
Ela, então, voltou ao choro profundo.
E, entre um suspiro e outro, tentou me dizer o que sentia.
Disse que havia se separado recentemente. E que estava muito difícil para ela. Que ela simplesmente não estava conseguindo lidar com o filho que, obviamente, também estava sentindo. Mas ela não sabia o que fazer... Que estava se sentindo muito sozinha. E que embora morasse no mesmo terreno que mãe, irmão e outros familiares, estava muito sozinha.
Chorava muito...
Eu? Bom... Eu já estava chorando junto fazia tempo...
Claro que consegui me colocar no lugar dela. Acho que toda mulher consegue se colocar nesse lugar: sentir-se só. Ver-se só. Sentir-se em profunda dificuldade e não poder transparecer, e ter que segurar a onda, fazer sacrifícios emocionais com medo de que respingue num filho, numa filha...
Eu só conseguia ouvi-la, e segurar na sua mão, e colocar mais água no copo.
Por fim, disse a única coisa que senti que podia dizer:
- "Olha, entendo como você se sente. De verdade mesmo. Porque criar um filho ou uma filha parece, mesmo, em muitos momentos, algo muito solitário, embora estejamos cercados por pessoas. Mas acho que todo mundo se sente assim. Todo mundo pode passar por isso, muita gente passa por isso, muita gente mesmo. Tem muita gente que deixa de passar por isso não porque queira, mas porque tem medo de enfrentar o desconhecido. E ninguém tem uma fórmula mágica. Ninguém. Não vou te dizer filosofias não. A realidade, muitas vezes, não deixa brechas para filosofia. Mas tem uma coisa que pode te ajudar: isso que acabou de acontecer. Você viu por que ele estava gritando?"
- "Pois é... Pelo Hot Wheels. Mas eu não sabia que tinha caído... Pra tu vê..."
- "Vocês não se falaram. Não se comunicaram. Um não olhou no olho do outro e disse o que precisava dizer. Foi só isso. Então, olha, eu não sei o que te dizer nessa situação além disso: tentem se ouvir mais. Se são só vocês dois na maioria do tempo, agora, vocês precisam se ouvir. Precisam ser confidentes. Um precisa ouvir o outro. Ele só gritou assim o tempo todo porque não conseguiu sua atenção...Eu sei que está difícil pra você, mas pra ele também está. E ele apanhou. Não bata, mesmo que esteja no seu limite, não bata... ".
Eu entendia que ela não havia dado atenção porque, puxa... Estava sofrendo muito também... Mas não dar atenção ao filho não a aliviou do sofrimento nem resolveu sua angústia, pelo contrário: só piorou tudo.
Ela ficou ali pensando, assoando o nariz e, então, chegou a mãe das três filhas com o garoto. Ele com o carrinho na mão... Rosto inchado de chorar. Lábios comprimidos de criança que acaba de achar algo do qual gosta muito.
Ele, então, sentou na cadeira e ficou mexendo no carrinho, cabeça baixa.
Olhei para aquela mãe das três filhas. Cruzamos nossos olhares mas não conseguimos dizer nada. Ela, apenas, colocou as duas mãos sobre o peito... como se pudesse também sentir aquela dor.
Claro que podia.
Todas nós podíamos.
Tanta dor naquele curto episódio...
Por pura humanidade, no sentido de "ser humano".
Por pura falta de comunicação.
Por pura falta de confiança, mãe no filho, filho na mãe. Falta de confiança no fato de que, sim! Podiam confiar um no outro! Podiam contar um com o outro! Eles dois eram, agora, todo o seu núcleo familiar, sem mais ninguém, precisavam ter total confiança um no outro.

Depois que o menino chegou com seu carrinho, ficou um clima estranho.
E a mim só me restou dizer: "Querido, senta aqui do ladinho da mamãe. Você já está melhor, a mamãe também. Já está tudo bem".
Ele logo sentou e perguntou se ela queria sorvete, e ela disse que sim.
Então dei um abraço muito forte nela (e ela em mim, o que também me fez muito, muito bem...). Perguntei se podia dar um beijo nele e ele deixou. Beijei-o.
A moça das três filhas disse que ficaria mais um pouco (a caçula estava comendo algo). Despedi-me dela e, em seu ouvido, disse: "Obrigada". E ela apenas me respondeu: "Obrigada".

Saí dali e fui caminhando, muito lentamente, de volta ao supermercado.
Meu carrinho ainda estava no mesmo lugar.
Nem quis pegar o que faltava. Fui ao caixa, paguei e fui embora.
Coloquei as coisas no porta malas, sentei, fechei a porta e... chorei um tanto.
Chorei por tudo. E chorei por nada.
Pela vida ser confusa. Pela vida ser simples. Pela comunicação ser difícil. Por tanta coisa ser demasiadamente fácil. E difícil ao mesmo tempo. Por estarmos tão cheios de amigos. Por estarmos tão sozinhos. Por pensar na dor dela. Que também podia ser a minha. Por pensar naquele menino gritando, apenas, somente, por seu carrinho. Por pensar na minha filha... Por pensar que quero poupá-la de toda dor do mundo. Por saber que eis aí uma missão fadada ao fracasso...

Decidi contar essa história aqui por dois motivos.
Primeiro: muitas vezes vemos uma mãe ou um pai enlouquecidos frente a uma criança, atacando-a violentamente, e temos ímpeto de atacá-los (aos pais) também. É natural. Não dá pra ver a imensa injustiça da violência contra um ser indefeso que é a criança sem nos abalarmos. E nada, nada justifica a violência contra a criança. Mas é preciso lembrar que, embora ali seja a criança quem precisa da mais emergencial ajuda, não é somente ela... O adulto também precisa. O imenso problema é: nem todos querem ser ajudados. Aliás, muito poucos querem. Muito poucos conseguem ver que os problemas sérios da vida cotidiana os tiram do prumo e que é o lado mais fraco da corda quem sofre mais. E aqueles que não querem... Oras... Passam, muitas vezes, uma vida fugindo disso. Enquanto perpetuam seu ciclo de agressão.
O segundo motivo é: em um momento de dificuldade com seu filho ou filha, de gritos, choro, crise, pare. Pare tudo o que estiver fazendo. Abaixe-se até ficar na altura de seus olhos. Segure-o pelos bracinhos e diga: "O que foi? O que aconteceu? Me diga: o que eu posso fazer pra te ajudar?". A resposta pode tanto ser um angústia facilmente solucionável quanto algo inalcançável. Mas o importante não é se conseguimos ou não fazer o que a criança quer, mas que estamos ali para ouvi-los, que eles nos olharam nos olhos e nós nos deles. Que foi estabelecido um contato importante, um vínculo de confiança, um "ouvir". E todo mundo quer ser ouvido... Ninguém quer ser ignorado em suas angústias.

Se você puder resolver facilmente, resolva.
Se não puder resolver, explique porquê não pode.
Se a crise continuar, continue a ouvi-lo, a perguntar, a dar atenção.
Pare o que está fazendo, pare de caminhar, desligue o telefone, pare de digitar e diga: "Estou aqui. Estou com você. Me dá um abraço".
Às vezes, eles nem conseguem o que querem, mas sentem-se tão amparados e protegidos que deixam-se abraçar e se acalmam. E todo mundo tem mais condição de ouvir e entender quando está calmo...

Isso que vivi ontem, por tabela, por meio de outras pessoas, mexeu muito comigo. Fui dormir agarrada na minha filha, pensando neles. Em como será que estariam naquele momento.
Torcendo para que estivesse tudo bem.
E para que, talvez, um estivesse encontrando apoio no colo do outro.
Porque é, também para isso, que mães/pais e filhos vêm juntos em uma mesma caminhada.


20 de out. de 2010

O Nascimento da Borboleta de Ouro

Contemplando o nascimento da Borboleta de Ouro,
A Menina, maravilhada, como quem bate palmas,
Tomada por imensa alegria e encantamento,
Pergunta aos Pais como isto foi possível.

Como aquela lagarta branca e cabisbaixa,
Que caminhava com lentidão
Entre uma folha e outra,
Pôde tornar-se tão bela e Formosa?

Como aquele ser que apenas rastejava
Pôde tornar-se a Graciosidade de Asas Douradas,
Que voa pelos Céus Iluminados,
Indo de flor em flor em vôos elegantes?

Então os Pais, sorrindo e contentes, responderam
Que ela se tornou naquela Estrela de Luz
Justamente porque ela acreditou na Sua Vida,
Por manter uma fé inabalável no Seu Ser.

Enquanto ela via os pássaros a voar,
Ou os insetos a zunir para todos os lados,
Ela, a lagarta, não se entristeceu, continuando
A alimentar-se conforme os desígneos do Seu Coração.

Enquanto todos pareciam estar a divertir-se,
Cantando, trabalhando, brincando e amando,
Ela, a lagarta, com fé em Si Mesma,
Retirou-se e fechou-se no seu Casulo.

É verdade que também teve momentos de dúvidas,
Perguntando a Si Mesma o que fazia naquela Caverna Escura;
Por vezes até chorou, não compreendendo
O que se passava ou a razão de tudo aquilo.

Acusava-se de vez em quando de estar a fugir da vida,
Ou de ter nascido com algum problema genético
– Sim, as lagartas também se preocupam com isso! –,
Mas persistia naquilo que sentia ser o Seu Destino.

E de tanto meditar na Essência de Si Mesma,
Livrou-se dos sonhos dos outros seres vivos,
Tanto dos pássaros e dos insetos,
Como também até de outras lagartas, mais fortes e vistosas.

Permaneceu lá, meditando concentrada no seu Coração,
Sentindo mudanças sutis em todo o seu Ser,
O seu organismo transformando-se
Como se uma doce energia o fosse modelando.

Eis então que, como que por divina mágica,
A lagarta, que estava cintilando em Autêntica Fé,
Sentiu que aquele era o momento de fazer força
Contra o Casulo que lhe era agora incómodo e apertado.

Abriu, então, as suas Asas de Ouro Solar,
E, como uma estrela em chamas,
Alçou o seu primeiro vôo, tão naturalmente
Como se ela sempre tivesse sido uma Borboleta.

Os pássaros que a viram julgaram-na divina,
Os insectos, em perplexidade,
Não sabiam de onde ela havia tirado
Aquele par de asas, como as de um Anjo de Luz.

As demais lagartas fitavam-na das folhas verdes,
Com alguma vaga intuição a indicar-lhes
Que aquela Borboleta de Ouro
Era o futuro reservado a cada uma delas.

Não imaginavam como seria possível
Tornarem-se tão esplêndidas como aquela Borboleta,
Só sabiam que ansiavam em muito
Pelo Processo que as conduziria até Ela.

Algumas das lagartas até rezavam
Para a imagem da Borboleta de Ouro,
Acalentando nos seus Corações
A doce Presença daquele Ser de Luz.

E as que faziam assim
Já adentravam o Casulo
Em Felicidade de Encantamento,
Contentes pelo tão aguardado momento.

Fluiam na Divina Experiência
Sabendo que tudo estava certo,
Que mesmo que não compreendessem,
Havia quem as compreendia e protegia...

Esta é a História Sagrada
De todas as Borboletas,
Não apenas da Borboleta de Ouro,
Como também das de todas as Cores.

Esta, minha Menina Linda,
- Falavam os doces Pais -
É a História de todos nós,
A História de toda a Humanidade.

Que temos de aprender a Confiar
Na sacralidade do nosso Ser,
Que Ele nos conduzirá, carinhosamente,
Para um incrível futuro de Luz.

Um futuro que nos dará Asas
Como que pela ação de um Milagre,
Que nos encerra em um Casulo
Para nos tornar Sagradas Borboletas de Ouro.

Marcel Cervantes

2 de mar. de 2010

Depressão - Falta de Si mesmo

Hoje conversava pelo telefone com uma amiga (que vem fazendo profundos resgates de si mesma (visão minha)) e me contava que às vezes se sente depressiva... Tem pensamentos "baixos", pensa bobagens e cenas de morte e suicídio vem a sua mente... disse ela primeiramente que sabe que "isso não é dela"... disse que hoje acordara sentindo-se melhor e ao olhar as fotos da Aldeia no blog havia se emocionado.
Conversa vai conversa vem, falamos deste período que a humanidade vem passando, todas as catástrofes e fenômenos naturais, sofrimento, medo... que as pessoas estão em pânico e isto nos afeta energéticamente.
Contou ela que ontem teve esses tais pensamentos e sentiu-se depremida, mas que a tarde havia estado na casa dela um “homem”, para instalar o ar-condicionado, e ela percebera na fala dele um temor muito grande com as últimas notícias do terremoto no Chile. Também nosso litoral havia apresentado manifestações de Maré Alta que preocupara a população da região: "Opa, está chegando perto de nós"! É assim, enquanto está longe nos preocupamos, rezamos, enviamos boas energias... mas quando está perto nos apavoramos e nos perdemos na poeira de nossos temores.

Mas então... Dizia ela que o homem estava fora de si e ela passou a conversar com ele... perguntou se ele já havia se dado conta que a Terra tem Vida! Se já havia parado para pensar que lançamos uma semente na terra e ela brota... essas coisas... e ela disse que aquele homem lhe confessou que nunca havia parado para pensar em nada disso.
Logo me veio o pensamento que aquela ação dela havia feito com que acordasse melhor no outro dia. Ela havia Despertado um humano! E quando eu acordo um Humano, algo em mim desperta também.
Perguntei então: querida... será que a angústia que sentes não é uma angústia da tua Alma?
Quando falamos "sei que isto não é meu” e estendemos a culpa sobre os outros pelo o que nos acontece, estamos fugindo da responsabilidade e estamos nos vendo como indivíduos isolado do Todo.
E ela disse: “Sei que estes terremotos e maremotos que acontecem na Terra também são meus terremotos e maremotos internos”.
Interessante não?!

Tudo o que nos acontece, acontece porque é preciso. Como diz Trevisol, "é o Amor procurando o seu lugar"! É o amor procurando um lugar dentro de nós, em nosso jardim, mas se a terra está seca ou tomada por ervas-daninhas, não é possível que algo floresça. Tudo se torna árido, cinza, sombrio... Mas o Amor não desiste de nós! Então, entramos na “Noite Escura da Alma” (como chamam os Povos Nativos), atravessamos nossos próprios desertos à procura de água, de vida... às vezes é um processo bem doloroso e sofrido, por não entendermos o que nos acontece.


A ciência decidiu chamar isso de DEPRESSÃO e parece que a moda pegou! Depressão virou Moda! Ironia à parte, o que acontece é que o Ser Humano sente uma saudade inexprimível de algo que não sabe o que é, mas este algo nada mais é do que Ele mesmo. Saudade de Si mesmo!
O Depressivo sente saudade de si, está tão longe de CASA (seu templo interno, seu centro) que se entristece, perde o brilho, sente falta, quer atenção.
Algumas escolas, linhas de pensamento, vão chamar a depressão de chantagem: “O depressivo não passa de um chantagista”. Sim, por querer atenção, gera uma depressão para que às pessoas fiquem à sua volta, se interessem por ele, se preocupem com sua doença.

Compreensível... diante de toda sua solidão! Mas de nada vai adiantar (e quem já passou por esta experiência bem sabe), pois por mais que nos dediquemos, esta pessoa não sai deste estágio... então... é medicada (o medicamento resolve o sintoma mas não a causa) e esta pessoa apresenta picos, períodos de melhora, períodos de queda. Ela não se firma. O que falta então? Falta ela estar no AQUI E AGORA.
Normalmente o depressivo está perdido, no passado ou no futuro, está distante. Então, falta ele se dar conta (e é preciso lembrá-lo disto), que ninguém irá preencher o vazio que sente, a não ser ele mesmo. O lugar que não está habitado, a casa que está vazia é dele. Não podemos convidar uma visita para nossa casa, alguém que gostamos, que amamos e não estar lá para recebê-lo!
Claro que, a depressão pode envolver questões genéticas (pais/avós com tendência), psicológicas (idade avançada, fatos traumáticos), sociológicas (pressão da família, da sociedade), hormonais e fisiológicas (menopausa, depressão pós-parto, falta de sono), questões espirituais (apego, obsessão e culpa de coisas feitas no passado), mas nada disso nos atingirá se estivermos constantemente buscando o alinhamento com nosso CENTRO.

Voltando a história da minha amiga, ela é uma pessoa esclarecida, estudiosa e dedicada à algumas práticas espirituais, mas quando iniciamos este caminho de busca pela espiritualidade, não nos desfazemos da nossa história pessoal, ela continua ali. Temos muitas gavetas internas e ás vezes, são como armários antigos, sótãos ou porões, que a muito não são visitados. Quando digo isto, as pessoas logo imaginam que terão que mexer nas suas “cacas”, sim também, mas tem muita coisa bonita, momentos felizes, alegres, que não nos recordamos mais, que podem ser um “gatilho” para nos trazer DEVOLTA ao LAR.
Não adianta uma coisa externa, imposta ou auto-imposta, pra combater algo que está não no corpo, mas no fundo da alma. É preciso usar uma força INTERNA, que está adormecida, para sobrepujar a tristeza. E para mobilizar essa força faz-se necessário um "gatilho", que pode ou não ser externo.
Penso que des-cobrir o seu Dom (remover o véu que há sobre ele) seja um bom caminho de retorno. Todos nós temos dons... um amigo uma vez me disse que o Dom nunca é para a gente, sempre é para o Outro... isso me marcou muito. Sim, porque meu dom vem de Deus ( D + Eus), são todos os meus Eus atuando no benefício de alguém. E quando eu curo o outro eu me curo. Quando o outro ganha com o meu dom, eu ganho. Porque eu faço parte do Todo, a Humanidade em mim se beneficia quando eu coloco em prática meu dom. Seja ele cantar, dançar, curar através da fala, do toque, do abraço, atender com gentileza, dar informação, ensinar, administrar, cozinhar, costurar... todas as profissões, se praticadas com prazer, com amor, com intenção de Servir, mesmo que seja gratificado por isso, é Deus te mantendo. Mas faça o que você gosta, faça com amor.
Deixe de alimentar a corrente do medo, expresse seus talentos e alimente a corrente do Amor. Dê atenção ao seu dom, descubra-o dos véus da ilusão. Muitos não exercem seu dom porque não dá dinheiro, outros porque não acreditam que são bons no que fazem. Se você não se valoriza, ninguém valoriza você. Por que? Porque a “nuvenzinha” sobre sua cabeça vai impedir naturalmente que a bem-aventurança chegue até você.
Tem pessoas que se cansam de ajudar porque não recebem nada em troca. Mas se estão ajudando esperando recompensa então, não estão fazendo espontâneamente. Quando damos de coração o Universo sempre nos gratifica.
Esses dias escutei de uma moça que desperta no Caminho: “Quanto mais eu dou, mais eu tenho para dar”. Achei lindo! Esse dar não é se desfazer das suas coisas, abrir os armários de casa e sair doando tudo que tem, mas ofertar, sair da mente contraída, dar um sorriso, um gesto carinhoso, agir gentilmente... a vida é simples, a gente é que complica. Já ouviram isso antes? Rsrsrs, jà né?!

Beijos,
Até um outro Agora.

12 de out. de 2009

Buraco sem fundo

Queridos (as), hoje conheci o blog "Alquimia do Amor" e trouxe este texto de lá para compartilhar com vocês, gostei muito.

Queria falar sobre a dor. Mas também teria que falar sobre a ilusão. E não poderia esquecer do mal que nos causa a expectativa e a ansiedade.
Sei que, na maioria das vezes, passamos a maior parte do tempo tentando suprir as exigências que a sociedade nos coloca. Um bom emprego, riqueza material, um casamento, família, filhos... E por aí vai. Porém, grande parte de nós não se pergunta sobre qual é o desejo de suas almas.
Pode até acontecer de, ter essas coisas e adequar-se ao padrão, ser, de fato o desejo de algumas pessoas. Mas sabemos que, na maioria das vezes, não é isso que ocorre. Dessa maneira, percebo também que podemos estar batalhando por coisas que não correspondem ao verdadeiro desejo de nossa alma e, muitas vezes, acabamos não percebendo qual é a razão da fadiga, do desânimo e do cansaço.Vem a dor. E não sabemos ao certo porque dói. O que sabemos é que não nos sentimos bem. Acreditamos que estamos em falta, e que não somos "bons o suficiente", afinal, se eu não tenho todas essas coisas - que todas as outras pessoas desejam - eu fico à margem, eu devo algo, sou um fracasso.
A nossa auto-estima fica abalada e, sem perceber, vamos nos envolvendo em situações cada vez mais confusas e problemáticas. Relacionamentos que mais fazem mal do que bem. Se não estamos felizes, se vibramos na energia da falta, a tendência é de que iremos, cada vez mais, atrair pessoas carentes e situações difíceis. Ficamos ansiosos. Acreditamos que precisamos ter tudo o que a sociedade consumidora diz que "precisamos ter". E nessa ânsia de ter, ficamos na expectativa. Principalmente no que diz respeito aos relacionamentos afetivos. O vazio é tão grande, que “qualquer chinelo velho” pode servir ao nosso pé cansado.
A falta vai ficando cada vez maior. Tudo falta, nada temos, pobre de mim, como sofro, como dói em mim... Tornamo-nos egoístas, afinal... o centro do mundo é o “meu umbigo”. O que me importa a sua dor, se a minha é mais dolorida do que a sua?
E assim vamos, caindo num buraco sem fundo, num infinito de angústia e tristeza, implorando por salvação, afinal, não fomos nós que nos colocamos nessa situação. Foi Deus! Ele não é bom comigo, não me dá o que eu quero...
Lógico! Deus não nos dá o que queremos e sim o que precisamos. A gente cai no buraco sem fundo do vitimismo, pelo tempo que for necessário para que aprendamos que: tudo o que precisamos ter está em nós e tudo o que queremos fazer depende de nós para acontecer. A responsabilidade é toda nossa. O mundo é o que é, as pessoas são o que são, mas eu lhes pergunto: até quando vamos repetir comportamentos e posturas que não nos servem mais? Porque não mudar a “frequência” do pensamento, e sintonizar-se com uma energia mais positiva?Está em nossas mãos. Podemos subir aos céus ou descer aos infernos. Tudo isso (e muito mais) é uma questão de escolha. Se você parar para pensar, perceberá que tem repetido os mesmos comportamentos, e que estes, lhe levam à situações semelhantes. Pessoa! Mudar é difícil, mas não é impossível. Portanto, lancem-se nessa nova empreitada. Você PODE!
(Cassandra Pessoa)

11 de set. de 2009

Barulho da Carroça


"Certa manha, meu avô José, muito sábio, convidou-me a dar um passeio pelo bosque do bairro onde morávamos. E eu aceitei com prazer.

Ele se deteve numa clareira e depois de um pequeno silencio me perguntou:

- Além do cantar dos pássaros, você está ouvindo mais alguma coisa?

Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi:
- Estou ouvindo um barulho de carroça.

- Isso mesmo, disse meu avô, é uma carroça vazia ...

Perguntei ao meu avô:
- Como pode saber que a carroça está vazia, se ainda não a vimos?

- Ora, respondeu meu avô. É muito fácil saber que uma carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça maior é o barulho que faz.

Tornei-me adulto, e até hoje, quando vejo uma pessoa falando demais, gritando (no sentido de intimidar), tratando o próximo com grossura, inoportuna, prepotente, interrompendo a conversa de todo mundo, tenho a impressão de ouvir a voz do meu avô José dizendo:
"Quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz..."

24 de ago. de 2009

A ILHA


Por Ricardo Kelmer


Era uma ilha que vivia no meio do oceano. Levava uma vida tranquila, sem grandes questionamentos. Conhecia outras ilhas e com elas se comunicava. Um dia, porém, uma idéia inquietou a ilha: se toda vez que a maré baixava, uma porção de terra se descobria, então até que ponto haveria terra? Até que ponto a ilha existia?

Isso lhe tirou o sono por várias noites. De repente seu conceito sobre si mesma começou a mudar. Sempre se considerara uma porção de terra boiando à superfície da água, isso era ponto pacífico, todas as outras ilhas também pensavam assim. Mas agora já não podia acreditar nisso. Uma ilha não terminava logo abaixo da linha das ondas. Não. Continuava para baixo. Talvez uma ilha na verdade fosse uma... montanha. Uma montanha com o pico fora dágua.

Saber que ela “continuava” além daquilo que sempre julgou ser era algo espantoso de se pensar. Assim, dia após dia, a ilha prosseguiu em seus esforços de auto-investigação - precisava saber até onde existia. Mas à medida que sua atenção mergulhava em si mesma, as águas ficavam mais escuras. Era preciso cada vez mais concentração para não se perder. Ela prosseguiu, mais atenta, e descobriu que aquilo que existia abaixo da superfície continuava sendo ela mesma, sim, mas parecia ter algo como uma vida própria.

Cada vez mais surpresa a ilha constatou que aquela parte mais profunda de si mesma levava uma existência semi-independente, porém interagindo sempre com a superfície: influenciando e sendo influenciada por ela. A ilha então soube a razão porque se comportava dessa ou daquela maneira e muitas coisas ficaram mais claras a respeito de si mesma, de seus relacionamentos com outras ilhas e da vida de modo geral. E a cada descoberta que fazia, outras mais se anunciavam e de repente era como se o Universo se expandisse para dentro dela mesma!

Muito tempo se passou até que se convencesse, verdadeiramente, de que era mesmo uma montanha com o pico emerso. Ela estava presa a uma base e essa base era uma enorme extensão de terra que funcionava como chão. Vinham de lá todas as ilhas. E para lá voltariam todas quando os movimentos da terra, dos ventos e das águas as forçassem a isso. Mas a grande maioria das ilhas não sabia que todas elas continuavam para baixo. Por isso não entendiam as reais motivações de muito do que faziam. A parte acima da superfície era tudo que sabiam sobre si mesmas e isso era pouco. A parte submersa, a montanha, era a parte inconsciente de cada ilha, aquilo que desconheciam de si mesmas. E o fundo do mar era o inconsciente maior, único, de todas elas, o lugar de onde vinham.

Ao entender esse fato a ilha lembrou do tempo em que sua consciência de si própria se limitava àquela minúscula porção de terra à superfície. Todas as ilhas vêm do mesmo lugar - ela repetiu, intrigada com suas descobertas - porque são feitas da mesma terra... A areia e os nutrientes que as raízes de suas plantas colhem, vem tudo do mesmo chão... Todas as ilhas que existem são no fundo uma coisa só que se experimenta em várias extensões de si própria e cada extensão possui consciência de si mas esta consciência é limitada pois quase nunca desce em direção ao fundo, acomodando-se na parte mais superficial... Se cada ilha se aprofundasse em sua noção de si própria, acabaria conhecendo melhor a si mesma e, por virem todas do mesmo lugar, conheceria melhor a todas as outras ilhas.

A ilha viu que eram idéias grandes demais, confundiam a mente. Aquela auto-investigação era importante mas requeria muita atenção para não se perder durante o processo. Só assim poderia transitar com êxito entre as duas camadas de realidade, a que ficava à superfície e aquela mais escura e misteriosa que prosseguia rumo a seu próprio interior.Enquanto tudo isso acontecia as outras ilhas observavam seu comportamento e não entendiam bem o que ela tentava lhes dizer. A ilha sentiu-se só. Viu-se então pensando do ponto de vista da terra: se elas não se conhecem e elas todas são parte de mim, então eu ainda não me conheço tão bem... Assim sendo, como poderia condená-las? Não, não poderia. Deveria entender e aceitar o ritmo natural da vida de cada uma das ilhas. Deveria agir como a mãe sábia e bondosa que incentiva todos os seus filhos mas tem de respeitar o caminho individual de cada um deles... Foi então que, subitamente, a ilha percebeu, num intenso clarão de compreensão, que toda aquela vasta extensão de terra lá embaixo funcionava como um útero a expulsar pedaços de si mesma, forçando-os à superfície. Uma vez lá, eles se entendiam ilhas e começavam então sua aventura individual em busca de saber quem de fato eram, de onde vieram e por que existiam. Mas por que a terra fazia isso? Talvez para ela própria aprender com a experiência individual de cada ilha. Ao morrer, uma ilha levava à terra sua própria experiência que serviria para formar as futuras ilhas. Assim, toda ilha continha em si, sem se dar conta, a mesmíssima areia das que a antecederam. Através da vida de cada uma das ilhas, a terra como um todo estava sempre aprendendo cada vez mais sobre si mesma...

Se isso era verdade, então cada ilha possuía uma enorme responsabilidade: conhecer-se a fundo, viver a vida da melhor forma possível e aprender o máximo que pudesse pois tudo o que vivesse formaria o material do qual seriam feitas as ilhas que a sucederiam.A vida é mesmo uma tremenda aventura! - pensou a ilha enquanto se divertia com os olhares estranhos que as outras lhe lançavam. Uma aventura de cada ilha. Mas também da terra inteira.
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