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25 de abr. de 2014

Como lidar com os "chiliques" da criança

Por Carla Poppa

Como lidar com os “chiliques” da criança?


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É muito comum que os pais se sintam inseguros sobre como devem agir diante dos gritos e choros mais intensos das crianças, os chamados “chiliques”. Alguns pais acreditam que devem ignorar esses comportamentos, enquanto outros receiam deixar a criança sozinha em um momento no qual ela parece ter perdido o controle das suas emoções. Essa dúvida sobre como agir nessas situações é compreensível, já que o comportamento da criança pode ser semelhante em situações que envolvem sentimentos e sensações diferentes. Por isso, na maioria das vezes, os pais só conseguem se sentir seguros em relação à atitude que estão adotando na medida em que puderem identificar e se sintonizarem com o sentimento que desencadeou esse comportamento na criança.

É importante, então, tentar discriminar qual o sentimento que está motivando o “chilique”. É possível que a criança esteja frustrada e o chilique, seja na verdade uma birra. É possível também que a criança esteja com raiva ou ainda cansada. Todas essas sensações e sentimentos podem ser expressos com comportamentos que apresentam algumas diferenças sutis, mas que, em geral, são muito parecidos (mau humor, choro, gritos…) porque a criança pequena ainda está aprendendo a verbalizar o que sente. No entanto, para que esse aprendizado possa acontecer, a criança precisa da ajuda dos cuidados que os pais lhe oferecem. E eles precisam ficar atentos, pois cada sensação ou sentimento que a criança experimenta “pede” um cuidado diferente.


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O chilique pode ser birra ou a expressão da frustração da criança.

Em um contexto no qual a criança ouve um “não” e é impedida de fazer o que deseja, é possível que ela se sinta frustrada e o chilique seja uma expressão da sua frustração. Se os pais julgam que não é adequado comprar o brinquedo que a criança está pedindo e ela se joga no chão e começa a gritar no meio da loja, o cuidado que contribui para o seu crescimento é o limite. A criança só pode desenvolver a capacidade de tolerar a própria frustração a partir da capacidade dos seus pais de suportar a insatisfação que a criança experimenta nessas situações, o que eles demonstram quando conseguem impor e sustentar o limite. Nessas horas, vale tirar a criança de cena. Nesse exemplo, sair da loja de brinquedo para que tanto a criança perceba que não vai conseguir o que deseja agindo dessa forma, como também para que os pais possam se sentir mais tranquilos sem a pressão dos olhares das outras pessoas pode ser uma boa ideia. Para que essas cenas não se repitam com tanta frequência, quando a criança estiver calma, os pais precisam conversar e explicar o sentido do “não”. A capacidade que a criança tem de entender o motivo dos limites pode ajudá-la a lidar melhor e a suportar a frustração em uma situação futura.


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O chilique pode ser um acesso de raiva.

O chilique também pode ser a expressão da raiva que a criança sentiu em alguma situação. É possível que a criança esteja brincando com os amigos e quando encontra com os pais começa a reclamar, a dar um “chilique”, negando-se a fazer o que os pais pedem, por exemplo, o que costuma desencadear uma briga. Essas situações podem revelar que a criança estava sentindo raiva de algo que aconteceu em um momento anterior, quando estava com os amigos. É comum os pais entrarem em sintonia com o que a criança está sentindo sem perceber e sem conseguir pensar sobre o que pode ter provocado essa irritação, já que essas atitudes, geralmente, são logo rotuladas como “malcriações”.

Quando isso acontece, os pais ficam impedidos de oferecer o cuidado que pode ajudar a criança nessas situações. Ou seja, não conseguem ajudar o filho a contar o que aconteceu, a “desabafar” para que ele possa aprender a falar sobre o(s) seu(s) sentimento(s), assumindo o controle das suas ações, em vez de de agir dominado pelo que sente.


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O chilique pode ser uma demonstração do cansaço da criança.

Os chiliques também podem ser demonstrações do cansaço da criança. Essas situações podem ficar mais frequentes quando os finais de semana são tomados por atividades, privando a criança da oportunidade de descansar. Ou ainda, quando os passeios com a criança costumam se estender para atender aos diversos compromissos do dia a dia. Quando a criança passa do limite do seu corpo e fez coisas demais, é comum que ela fique mais agitada e precise da ajuda dos seus pais para se acalmar e conseguir descansar. No entanto, às vezes, durante a agitação, a criança acaba desobedecendo e fazendo coisas que não deve. Se os pais reagirem a essas atitudes de maneira agressiva, os choros e os gritos da criança podem tomar conta da situação e privar a criança do cuidado que ela precisa para reestabelecer o contato com o seu corpo e a sua sensação de cansaço.

Assim, se a criança começar a chorar, gritar, espernear, o primeiro passo (o mais importante) é fazer essa diferenciação e tentar identificar qual sensação ou sentimento está motivando o chilique. É dessa forma que os pais podem oferecer com maior segurança o cuidado que contribui para o crescimento dela.

14 de fev. de 2014

Uma história cotidiana de angústia, desencontro, amor e reencontro

Por Ligia Moreiras Sena

O celular tocou e eu atendi.
Fui empurrando o carrinho de compras em direção às gôndolas de meu interesse quando ouvi gritos muito nervosos de criança. Choro, misturado com grito, misturado com raiva, misturado com desespero. Todos pararam o que estavam fazendo em função dos gritos.
Tentei me concentrar no telefonema. Não consegui. Encerrei a conversa dizendo que ligava na sequência e fui atrás.
Eu sou daquele tipo de pessoa louca que, ouvindo gritos, vai atrás para ver se pode ajudar de alguma maneira. Não consigo passar por gritos como se nada fossem, como se ali não houvesse alguém sofrendo ou com problemas.
Fui.
Parei no corredor e consegui avistar, lá longe, muitos metros adiante, uma mãe e uma criança.
A criança, um menino aparentando entre 5 e 6 anos, estava sendo puxado pela mãe, que aparentemente falava em um celular, com rosto também aparentemente envergonhado pelo escândalo do filho. Ela no celular e o menino se esgoelando, gritando coisas como: "Para mãe, para mãe!". Ele gritava isso repetidamente e, por ver que não recebia resposta, entrou em um surto nervoso onde sequer se conseguia ouvir o que dizia. Era muito grito, muito choro, muito desespero. E ela, visivelmente consternada pelo escândalo, focava toda sua atenção no celular, como se aquela suposta conversa fosse capaz de tirá-la daquela situação.
Ela caminhava a passos muito rápidos, puxando o garoto pela mão, que ia sendo arrastado, gritando, olhando para trás, com o braço esticado, como se quisesse continuar no mercado. Não conseguindo puxá-lo sem arrastá-lo literalmente pelo chão, então deu duas bofetadas na cabeça dele, puxou-o pela orelha e pelo cabelo e aquilo e nada pareceu a mesma coisa: o guri continuava gritando, nervoso e desesperado. Deu dois fortes tapas e puxou sua orelha como se nada fosse, ainda ao telefone. Então simplesmente guardou o aparelho - e foi quando percebi que realmente não havia ligação nenhuma, era uma "fuga social", uma forma de fugir "socialmente" daquele momento desagradável -, puxou-o por uma das pernas e por um dos braços e foi carregando o filho assim. Que continuava a gritar.
O supermercado fica dentro de um shopping.
Eles já haviam saído do mercado e caminhavam pelo corredor do shopping.
Eu também.
Larguei meu carrinho e fui atrás, observando tudo.
Sinceramente? Temia pelo menino. Era visível que ela perderia o controle a qualquer momento e viria com tudo pra cima dele. Eu simplesmente não podia pensar em ir embora e saber aquele menino em risco. Fiquei lá. Enxerida? Bisbilhoteira? Vigia da moral e dos bons costumes? Não. Nada disso. Não sou nem um pouco moralista, nem acho que as pessoas devem se meter na vida dos outros. Exceto quando os outros estão correndo risco. Crianças, especialmente. Sim. Sou aquele tipo de pessoa "psicopata" (já fui chamada assim; aliás, já fui chamada de tantos nomes que, se eu contasse, poucos acreditariam...) que ao ver um marmanjo ou uma marmanja bater em criança faz questão de constrangê-lo. Porque violência contra criança, meu caro, minha cara, não dá. Violência contra criança, meu camarada, simplesmente não dá. Não é porque temos filhos que temos direito de agredi-los. E existem leis que protegem os menores. E uma de nossas funções enquanto cidadãos ativos e conscientes é, também, a de protegê-los. Então, realmente, não sou daquele tipo de cidadã que assiste a tudo de camarote com o dedo (e a língua) em riste para criticar, julgar e apontar, enquanto fica bem sentadinha em sua cadeira estofada sem fazer absolutamente nada. Ou enquanto há, atrás de si, um passado de descaso e/ou agressão com os próprios filhos, mas, ainda assim, sentindo-se apto a criticar o outro.
Então a mãe se dirigiu a uma loja, arrastando atrás o filho. Gritos e mais gritos. Bastante constrangida, mas ignorando-o sumariamente. Ela, então, procurou algo em uma prateleira, achou - o menino gritando -, colocou na cesta - o menino gritando -, e seguiu em frente.
Eu atrás. Pronta para interferir no primeiro golpe a ser desferido contra ele (não, primeiro não; segundo ou terceiro; ela já havia esbofeteado o garoto, quando eu ainda não havia decidido segui-los).
Então ela foi para a fila do caixa. Segurava pelo braço o menino, que estava atirado ao chão, vermelho de tanto gritar, as lágrimas correndo em rios.
Na fila, na frente deles, uma moça com três filhas maiores. Em função dos gritos, a mãe das três filhas se virou e deu de cara com a mãe do menino. Que, ao fitá-la... desabou a chorar...

Colocou a mão no rosto e teve a maior crise pública de choro que eu já havia presenciado...
Largou a mão do menino.
Ele gritava, ela chorava. Uma situação muito difícil. De dar pena mesmo.
Como os gritos do garoto pioravam a cada momento, a mãe das três filhas foi acudi-lo. E ficou lá a mãe do garoto. Chorando. Chorando muito. Sozinha.
Aí eu não aguentei mais e fui...

Enquanto a mãe das meninas acalmava e amparava o menino (dizendo coisas como: "Querido, olha pra mim, olha aqui pra mim. Você quer tomar um sorvete? Vamos, vamos levar a mamãe pra tomar um sorvete?"), eu fui até a mãe dele, coloquei um braço em volta de seus ombros e apenas disse: "Você quer tomar uma água, ou um suco? Vamos? A gente vai com vocês...".
Ela chorava muito... E simplesmente disse "Quero...". Quase sussurrando... Sem nem me olhar nos olhos. Virei-me para a moça das três filhas e disse: "Vamos todos?".
A mãe das meninas, então, pediu para a filha maior permanecer na fila do caixa, pagar e encontrá-la no café em frente. A mãe do menino deixou cair a cesta com a única coisa que havia separado. A mãe das meninas deu a mão ao pequeno. Eu segui em frente com a mãe dele e a pequena turma atrás. Todos da fila nos olhavam.
Então sentamos todos em uma mesa. A mãe das meninas pediu uma água, um sorvete para o pequeno e dedicou-se exclusivamente a ele.
A crise de choro havia cessado, mas os soluços ainda persistiam.
Um silêncio constrangedor de nossa parte - mãe dele e eu.
E foi quando ouvimos a mãe das três filhas dizendo:
"Mas por que você estava chorando tanto? Você quer me contar?"
Ao que ele respondeu, entre soluços:
- "Meu Hot Wheels caiu lá no mercado..."
- "E você quer tentar procurá-lo?"
- "Quero...".
Então a moça das três filhas se virou para a mãe dele e disse:
- "Ele trouxe um Hot Wheels?"
- "Sim, trouxe..." - sussurrou a mãe, com uma expressão que nem sei definir... - "Mas eu não sabia que tinha caído..."
- "Tudo bem por você se eu for com ele até lá, tentar achar? Minhas filhas ficam aqui, com vocês". - disse a mãe das três filhas, dando a entender que "Ei, confie em mim. Estou confiando em você".
- "Tudo bem... Pode ir sim".
E lá se foi a mãe das três filhas com o filho da outra mãe.
Eles se foram e ficamos nós.
Então perguntei a ela se queria conversar. Disse que tinha visto tudo, todo o choro, todos os gritos e que vi o quanto ela estava se sentindo envergonhada, mas que não tinha motivo nenhum pra se envergonhar, porque todo mundo que tem filho consegue, pelo menos um pouco, entender. E que quem não entende e prefere julgar, na verdade, não faz a menor ideia do que é criar uma criança.
Ela, então, voltou ao choro profundo.
E, entre um suspiro e outro, tentou me dizer o que sentia.
Disse que havia se separado recentemente. E que estava muito difícil para ela. Que ela simplesmente não estava conseguindo lidar com o filho que, obviamente, também estava sentindo. Mas ela não sabia o que fazer... Que estava se sentindo muito sozinha. E que embora morasse no mesmo terreno que mãe, irmão e outros familiares, estava muito sozinha.
Chorava muito...
Eu? Bom... Eu já estava chorando junto fazia tempo...
Claro que consegui me colocar no lugar dela. Acho que toda mulher consegue se colocar nesse lugar: sentir-se só. Ver-se só. Sentir-se em profunda dificuldade e não poder transparecer, e ter que segurar a onda, fazer sacrifícios emocionais com medo de que respingue num filho, numa filha...
Eu só conseguia ouvi-la, e segurar na sua mão, e colocar mais água no copo.
Por fim, disse a única coisa que senti que podia dizer:
- "Olha, entendo como você se sente. De verdade mesmo. Porque criar um filho ou uma filha parece, mesmo, em muitos momentos, algo muito solitário, embora estejamos cercados por pessoas. Mas acho que todo mundo se sente assim. Todo mundo pode passar por isso, muita gente passa por isso, muita gente mesmo. Tem muita gente que deixa de passar por isso não porque queira, mas porque tem medo de enfrentar o desconhecido. E ninguém tem uma fórmula mágica. Ninguém. Não vou te dizer filosofias não. A realidade, muitas vezes, não deixa brechas para filosofia. Mas tem uma coisa que pode te ajudar: isso que acabou de acontecer. Você viu por que ele estava gritando?"
- "Pois é... Pelo Hot Wheels. Mas eu não sabia que tinha caído... Pra tu vê..."
- "Vocês não se falaram. Não se comunicaram. Um não olhou no olho do outro e disse o que precisava dizer. Foi só isso. Então, olha, eu não sei o que te dizer nessa situação além disso: tentem se ouvir mais. Se são só vocês dois na maioria do tempo, agora, vocês precisam se ouvir. Precisam ser confidentes. Um precisa ouvir o outro. Ele só gritou assim o tempo todo porque não conseguiu sua atenção...Eu sei que está difícil pra você, mas pra ele também está. E ele apanhou. Não bata, mesmo que esteja no seu limite, não bata... ".
Eu entendia que ela não havia dado atenção porque, puxa... Estava sofrendo muito também... Mas não dar atenção ao filho não a aliviou do sofrimento nem resolveu sua angústia, pelo contrário: só piorou tudo.
Ela ficou ali pensando, assoando o nariz e, então, chegou a mãe das três filhas com o garoto. Ele com o carrinho na mão... Rosto inchado de chorar. Lábios comprimidos de criança que acaba de achar algo do qual gosta muito.
Ele, então, sentou na cadeira e ficou mexendo no carrinho, cabeça baixa.
Olhei para aquela mãe das três filhas. Cruzamos nossos olhares mas não conseguimos dizer nada. Ela, apenas, colocou as duas mãos sobre o peito... como se pudesse também sentir aquela dor.
Claro que podia.
Todas nós podíamos.
Tanta dor naquele curto episódio...
Por pura humanidade, no sentido de "ser humano".
Por pura falta de comunicação.
Por pura falta de confiança, mãe no filho, filho na mãe. Falta de confiança no fato de que, sim! Podiam confiar um no outro! Podiam contar um com o outro! Eles dois eram, agora, todo o seu núcleo familiar, sem mais ninguém, precisavam ter total confiança um no outro.

Depois que o menino chegou com seu carrinho, ficou um clima estranho.
E a mim só me restou dizer: "Querido, senta aqui do ladinho da mamãe. Você já está melhor, a mamãe também. Já está tudo bem".
Ele logo sentou e perguntou se ela queria sorvete, e ela disse que sim.
Então dei um abraço muito forte nela (e ela em mim, o que também me fez muito, muito bem...). Perguntei se podia dar um beijo nele e ele deixou. Beijei-o.
A moça das três filhas disse que ficaria mais um pouco (a caçula estava comendo algo). Despedi-me dela e, em seu ouvido, disse: "Obrigada". E ela apenas me respondeu: "Obrigada".

Saí dali e fui caminhando, muito lentamente, de volta ao supermercado.
Meu carrinho ainda estava no mesmo lugar.
Nem quis pegar o que faltava. Fui ao caixa, paguei e fui embora.
Coloquei as coisas no porta malas, sentei, fechei a porta e... chorei um tanto.
Chorei por tudo. E chorei por nada.
Pela vida ser confusa. Pela vida ser simples. Pela comunicação ser difícil. Por tanta coisa ser demasiadamente fácil. E difícil ao mesmo tempo. Por estarmos tão cheios de amigos. Por estarmos tão sozinhos. Por pensar na dor dela. Que também podia ser a minha. Por pensar naquele menino gritando, apenas, somente, por seu carrinho. Por pensar na minha filha... Por pensar que quero poupá-la de toda dor do mundo. Por saber que eis aí uma missão fadada ao fracasso...

Decidi contar essa história aqui por dois motivos.
Primeiro: muitas vezes vemos uma mãe ou um pai enlouquecidos frente a uma criança, atacando-a violentamente, e temos ímpeto de atacá-los (aos pais) também. É natural. Não dá pra ver a imensa injustiça da violência contra um ser indefeso que é a criança sem nos abalarmos. E nada, nada justifica a violência contra a criança. Mas é preciso lembrar que, embora ali seja a criança quem precisa da mais emergencial ajuda, não é somente ela... O adulto também precisa. O imenso problema é: nem todos querem ser ajudados. Aliás, muito poucos querem. Muito poucos conseguem ver que os problemas sérios da vida cotidiana os tiram do prumo e que é o lado mais fraco da corda quem sofre mais. E aqueles que não querem... Oras... Passam, muitas vezes, uma vida fugindo disso. Enquanto perpetuam seu ciclo de agressão.
O segundo motivo é: em um momento de dificuldade com seu filho ou filha, de gritos, choro, crise, pare. Pare tudo o que estiver fazendo. Abaixe-se até ficar na altura de seus olhos. Segure-o pelos bracinhos e diga: "O que foi? O que aconteceu? Me diga: o que eu posso fazer pra te ajudar?". A resposta pode tanto ser um angústia facilmente solucionável quanto algo inalcançável. Mas o importante não é se conseguimos ou não fazer o que a criança quer, mas que estamos ali para ouvi-los, que eles nos olharam nos olhos e nós nos deles. Que foi estabelecido um contato importante, um vínculo de confiança, um "ouvir". E todo mundo quer ser ouvido... Ninguém quer ser ignorado em suas angústias.

Se você puder resolver facilmente, resolva.
Se não puder resolver, explique porquê não pode.
Se a crise continuar, continue a ouvi-lo, a perguntar, a dar atenção.
Pare o que está fazendo, pare de caminhar, desligue o telefone, pare de digitar e diga: "Estou aqui. Estou com você. Me dá um abraço".
Às vezes, eles nem conseguem o que querem, mas sentem-se tão amparados e protegidos que deixam-se abraçar e se acalmam. E todo mundo tem mais condição de ouvir e entender quando está calmo...

Isso que vivi ontem, por tabela, por meio de outras pessoas, mexeu muito comigo. Fui dormir agarrada na minha filha, pensando neles. Em como será que estariam naquele momento.
Torcendo para que estivesse tudo bem.
E para que, talvez, um estivesse encontrando apoio no colo do outro.
Porque é, também para isso, que mães/pais e filhos vêm juntos em uma mesma caminhada.


23 de abr. de 2012

Meditação na gestação



"A gravidez é mais do que um estado físico da mulher. Durante o período de gravidez, a mulher está a criar dentro do seu corpo um novo Ser. Uma mulher grávida com a sua consciência ampliada pode comunicar com o seu filho de uma forma muito mais abrangente. O bebé está à espera de comunicar com a sua mãe.

A meditação é uma ferrament...a indispensável em qualquer etapa da nossa vida. Porém, a gravidez é uma oportunidade de a mulher abrir as janelas e as portas que estão fechadas dentro dela, trabalhar as suas emoções e enfrentar os seus medos. A gestação não é apenas a gestação de uma criança mas também a gestação de uma nova mulher que ao viver a sua gravidez conscientemente, descobre à sua frente um horizonte lindissimo onde antes só via paredes.

A meditação durante a gravidez ajuda a mulher a aceitar as modificações do seu corpo e a glorificá-las, ajuda a lidar com a ansiedade e com o medo, ajuda a mulher a centrar-se no seu processo interno e a renascer mais brilhante e mais forte.

Enquanto um bebé está a crescer dentro de nós, é muito importante evitar irritar-se, evitar ambientes desarmoniosos e visualizar imagens belas que conduzam ao relaxamento e à paz.

Para além disso, a meditação abre um canal de comunicação entre a mãe e o bebé em que através da concentração, da paz e do silêncio interior, a mulher consegue sentir a energia do seu filho, comunicar com ele e criar desde do primeiro momento uma relação profunda com o bebé que cresce dentro dela.
Talvez por todas estas razões, estudos comprovam que a prática de meditação durante a gravidez conduz a uma menor incidência de complicações durante o parto assim como da depressão pós-parto.

A meditação durante a gravidez é um hino à vida, ao renascimento e à paz interior."

Drª Susana Pinho

25 de abr. de 2011

Cuidados para a gestante com o Ayurveda

por Sabrina Alves
 
Seguiram-se nove meses e dois seres em construção estão prontos para virem ao mundo. Mãe e bebe, ao longo da gestação, em contato intimo, crescendo e se preparando para a jornada da vida agora passarão pelo trau...ma do nascimento. Ambos terão nova vida. A mulher pari-se Mãe, e a mulher que deu passagem para a nova condição recebe a nova vida, o novo ser, perpetuando a energia de Shakti, que para o Ayurveda é a manifestação da energia feminina.   
Ayurveda é o sistema de manutenção de saúde da Índia, onde segundo a dança dos Doshas, definição de biótipo ou código genético segundo os elementos da natureza (fogo, terra, água, ar e éter), os seres-humanos interagem com tudo a sua volta, buscando sempre harmonizar-ser com a natureza para que dessa forma alcance o equilíbrio do espírito, mente e corpo.   
Para o Ayurveda os momentos antes, durante e após o parto, formam um momento único e crítico. E as mulheres precisam estar atentas para que os eventos dessa época não afetem sua expressão feminina. Segundo essa sagrada e milenar arte nessa fase da vida, o corpo da mulher é habitado por duas almas, a sua e a do novo ser que se prepara para vir ao mundo.   
Antes da gravidez: A gravidez é resultado da intimidade, e todas as suas conseqüências devem ser partilhadas por ambas as partes envolvidas, futuros pais. Como a mulher terá de passar a dor física da criação, o homem deverá fornecer-lhe apoio psicológico, conforto e segurança. Para o ayurveda os cuidados para a gestação têm inicio desde os seis meses anteriores à fecundação, e quando os pais se encontram em ótimo estado de saúde, unem as duas sementes, com prazer e exaltação em um momento propicio. Claro que a realidade atual não é bem essa, as pessoas descobrem-se grávidas. Mas ainda assim, o Ayurveda preconiza que a gestante durante os nove meses mantenha atenção aos hábitos, pensamentos, alimentação e rotina diária de maneira que sejam inteiramente satvicas*, ou seja, puras, sadias e harmônicas, pois irão influenciar diretamente na formação do feto determinando toda uma vida.   
A gestação: Durante os nove meses seguintes devem se concentrar em acolher o futuro bebe na família, pois no Ayurveda a aura de amor e felicidade dos pais irá influenciar diretamente na formação do feto, determinando sua saúde bem como suas possíveis desarmonias em todas as fases subseqüentes da vida. Uma vez que se decidiu ter um filho tudo que se fizer irá influenciar em sua formação. Desta forma é necessário a pratica de meditação e yoga adequados ao período, bem como alimentação de fonte mais pura possíveis, descartando todos e quaisquer produtos processados, refinado e aromatizados artificialmente. O Ayurveda considera mãe e bebe uma única célula por pelo menos até os quatro anos de idade do bebe, ou seja, não existem cuidados na gestação para as mulheres separados da pediatria.       
Cuidados para as futuras mamães: Como diz o Caraka Samhita “Uma mulher grávida deve ser tratada como uma jarra cheia de azeite até a borda, onde nenhuma perturbação deva acometa-la”. Pois, como qualquer ser vivo o feto tem seus próprios doshas, e esses doshas adicionais no corpo da gestante são por si só razão da maioria dos desconfortos gestacionais. A percepção é um fator muito importante para ajudar a gestante a criar um ambiente carinhoso que dê amparo a ela e a seu bebe, principalmente por sua força gerada pelo corpo que se prepara.  Em vez de funcionar no piloto automático, use a oportunidade criada por sua gravidez para se tornar mais atenta a seu meio ambiente e os efeitos que esse tem sobre você e seu bebe.  
Na Gravidez: Nutra seu bebe e a você mesma por meio do som: os sons que nos cercam desempenham um papel importante no equilíbrio dos ritmos biológicos. Sons capazes de nutrir e acalentar são tão importantes para a saúde quanto são alimentos nutritivos, para o ayurveda tanto o que se ingere, como tudo que está no entorno, ou pensando e falado, transformam-se em alimentos e dependendo do que é, torna-se força ou gera desarmonias e doenças.     
*O toque: nosso maior órgão é a pele, portanto é fundamental a nutrição por meio do toque, pois libera substancias químicas que tem efeitos relaxantes e promotores de saúde para ambos. Quando você é tocada, mesmo que terapeuticamente, seu nível de estresse baixa, sua circulação melhora e as moléculas naturais que realçam o prazer de seu corpo são ativadas. Para a gestante é fundamental que ela realize a auto-massagem com óleos nutritivos realizada por no máximo 10 minutos sempre com movimentos suaves e circulares em cada parte do corpo. Importante a atenção especial da massagem localizada no períneo da mesma forma com óleos nutritivos como o de gergelim, neste caso, realizada pela própria gestante em si mesma. O Ayurveda indica a auto-massagem no períneo por volta de seis semanas antes do parto para fortalecer os tecidos moles e para que se tornem mais elásticos melhorando a perfomace no parto evitando lacerações, bem como beneficiando a regeneração no pós parto. Mães que são constantemente massageadas na gestação e praticam Yoga, aumentam a liberação de endorfina (anestésico natural do nosso corpo), o que irá auxiliar muito na redução dos estímulos dolorosos do trabalho de parto.   
*Enjôos: a maioria das mulheres no inicio da gravidez são acometidas por enjôos, para isso o ayurveda indica comer alimentos secos; deitar-se; beber líquidos puros transparentes ou carbogasosos; tomar ar fresco evitando ar-condicionado e lugares muito fechados e a pratica de meditação. 
Parto: Desde 1960, o parto foi considerado um “estado clinico”. Atualmente em países como EUA, Brasil e outros muitos países da América Latina nascem mais crianças de parto induzido, as terças-feiras e muito menos em sábados, domingos, feriados e festas de final de ano. Como são os hormônios fetais que controlam o inicio do parto, é provável que considerar o parto como “estado clinico” seja bastante perturbador para a unidade mamãe-bebê que está prestes a iniciar.   O ayurveda é partidário de que haja o mínimo de intervenções tais como anestesia, episiostomia e/ou cesáreas a menos que esta seja usada para salvar ambas as vidas; A parturiente deve cuidar de encontrar um obstetra ou parteira que se identifique e um lugar para realizar o parto em que ela se sinta relaxada, segura e cômoda. O parto genital e normal proporciona tanto para a parturiente e o bebe benefícios imediatos e em longo prazo. 
Uma mãe que recebeu os devidos cuidados de massagem, yoga e meditação, bem como correta alimentação e uma gestação serena, na medida do possível é capaz de parir de forma plena, proporcionando ao bebe a oportunidade de amadurecer o pulmão nascendo por parto natural e a ela uma recuperação de poucos dias e a ela de se perceber a sua força auto-gestionada.   
Amamentação: Para o ayurveda é muito importante que logo ao nascer a criança receba os primeiros fluidos do peito da mãe para posteriormente fazer disso um habito saudável. No ayurveda isso é considerado a própria transmissão de Ojas, ou seja, energia vital, fonte inesgotável para o fortalecimento e crescimento espiritual, mental/emocional e físico da criança. É por meio da amamentação que a criança recebe todos os nutrientes necessários para seu crescimento, por isso no ayurveda se considera uma única célula mãe/bebe, é tambem por isso tão importante o equilíbrio psicofísico da mãe, pois até mesmo quaisquer patologias que a criança por ventura desenvolva os compostos de fortificantes e de ervas são ministrados por meio da mãe e transmitido pelo leite materno ao bebe.   
Maternidade: O ayurveda recomenda que para mãe e, principalmente para os 1os meses do bebe, a rotina diária (rutocharya) que são praticas de que proporcionam estabilidade e fortalecimento emocional e físico onde por meio dela se garante a manutenção de saúde da célula mamãe/bebe.   Para o Ayurveda a gestação, o parto e maternidade são um momento propicio para a mulher se fortalecer e de estabelecer a sua expressão feminina perpetuando a energia feminina da criação e mantenedora. Porem não custa lembrar que, todas as orientações são uma breve descrição da abordagem do Ayurveda na gestação/pediatria e que, sempre se deve procurar um especialista no assunto para demais aprofundamentos.   
 
Bênçãos à Mãe Divina 
Namaskaram   
Sabrina Alves 
(Terapeuta e docente em ayurveda. Doula e especialista em ayurveda para mulheres, em alimentação ayurvédica para as fases da vida. Coordena um trabalho especifico de Ayurveda para Mulheres no Instituto de Cultura Hindu Naradeva Shala e idealizadora do “Clã dos Ciclos Sagrados”).

3 de mar. de 2011

Chegada do Gui nesta Terrinha



Olá queridas (os), venho aqui compartilhar a chegada do Gui, filhote da Jaque. A bolsa da Jaque estourou na madrugada do dia 19 de fevereiro, com uma linda lua cheia no céu... Cantei cantei para avó lua, me banhei bastante no seu brilho e recebi a notícia - "O Gui está chegando"... após 9 horas de trabalho de parto, assistindo a Jaque firme e forte entre caminhadas, reboladas, duchas, respirações, contrações, massagens... o pequeno Gui nasceu de cesárea, quando o Sol estava alto no céu.

Bem vindo Guilherme, que São Miguel Arcanjo ilumine sua linda VIDA!



Ana Andrade
Doula

1 de mar. de 2011

Clã das Nove Luas - Porto Alegre/RS


Clique na imagem para ampliar

Maiores informações com Amanda: (51) 85785707

6 de out. de 2010

O filho é o reflexo da sombra da mãe*

Durante os primeiros dois anos de vida, os bebês refletem as emoções e os sentimentos inconscientes de suas mães.

Um tempo de revelações, de experiências místicas, uma oportunidade para o auto conhecimento, para mergulhar nos aspectos ocultos da psique feminina. Um tempo em que as luzes e sombras emergem e explodem como um vulcão em erupção. É a loucura indefectível e um “não reconhecer-se” a si mesma, porque, desde o momento do parto, a alma da mulher se desdobra e se torna mamãe-bebê, bebê-mamãe ao mesmo tempo.

Isso é também a maternidade, segundo a inovadora e certamente polêmica visão da psicoterapeuta familiar argentina, especializada em crianças, Laura Gutman, autora do livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra”.
Seu livro, longe de pretender ser um guia para mães desesperadas, é um convite para que as mulheres repensem as idéias preconcebidas, os preconceitos e os autoritarismos, encarnados em opiniões discutíveis sobre o parto, os cuidados com os bebês, a educação, as formas de vincular-se e a comunicação entre adultos e crianças.

Entrevista VERÓNICA PODESTÁ

Social e culturalmente, a idéia que se apresenta às mães sobre a chegada de um novo ser é de um fato ideal, feliz e luminoso. È necessária certa audácia para encarar o tema a partir de um “encontro com a própria sombra”. A que você se refere exatamente?
É claro que a sociedade ou o inconsciente coletivo tentem colocar a maternidade num leito de rosas. Quanto mais uma mamãe “compre” esta visão unilateral, mais impactante e mais brutal resultará para ela o encontro com os lugares obscuros que aparecem depois do parto e no puerpério. Eu encaro a maternidade como uma crise, como um rompimento que se produz no parto e nessa quebra se colam partes da sombra, ou seja, pedacinhos de alma ocultos ou desconhecidos até então, que se manifestam através do bebê. Ele se converte em espelho cristalino dos aspectos mais ocultos da mãe, de sua sombra. Por isso, o contato profundo com um bebê é uma grande oportunidade que se deve aproveitar ao máximo.

De que maneira a sombra da mãe se manifesta através do bebê?
Quando um bebê nasce se produz a separação física, mas este corpo recém nascido não é só matéria, mas também um corpo sutil, emocional, espiritual. Ainda que a separação física efetivamente se produza, bebê e mãe seguem fusionados no mundo emocional. O bebê se constitui no sistema de representação da alma da mãe. Tiudo o que a mãe sente, recorda, o que a preocupa, o que rechaça, o bebê o vive como sendo próprio. Porque nestes sentido e momento são dois seres em um. Então a mãe atravessa esse período desdobrada no campo emocional, já que sua alma se manifesta tanto em seu próprio corpo como no corpo do bebê. E o mais incrível é que o bebê sente como próprio tudo o que sente a sua mãe, sobretudo o que ela não pode reconhecer, o que não reside em sua consciência, o que foi relegado à sombra. Então, se um bebê adoece ou chora desmedidamente, ou se está alterado, além de fazermos perguntas no plano físico será necessário atender o corpo espiritual da mãe, reconhecendo que a enfermidade da criança manifesta uma parte da sombra da mãe.
E como a mãe pode canalizar esta manifestação do bebê para seu próprio crescimento?
Se um bebê chora demasiadamente, se não é possível acalmá-lo nem amamentando-o nem aninhando-o, enfim, depois de cobrir as necessidades básicas, a pergunta seria: Porque chora tanto a sua mamãe? Se o bebê não se conecta, parece deprimido, quais são os pensamentos que inundam a mente de sua mãe? Se um bebê rechaça o seio, quais são os motivos que pelos quais a mãe rechaça o bebê? As respostas residem no interior de cada mãe, ainda que não sejam evidentes. Para ali devemos dirigir nossa busca, na medida que a mulher tenha uma genuína intenção de encontrar-se consigo mesma.
Este estado de fusão emocional dura dois anos, tempo em que a mãe experimenta estados alterados de consciência por viver desdobrada em vários campos emocionais. Esta é a loucura do puerpério.

Por que dois anos? Comumente se fala do puerpério como um período que dura cerca de 40 dias.
Se considera puerpério aos primeiros quarenta dias depois do parto, porque se toma como parâmetro a cicatrização da episiotomia, a interdição sexual ou moral, para que o homem não queira exigir genitalidade à mulher. Eu creio que é um fenômeno emocional. Enquanto dura a fusão emocional, dura o puerpério. Por volta dos dois anos a criança começa a separar-se emocionalmente de sua mãe. Até então era bebê-mamãe, um ser totalmente fusionado, que fala de si na terceira pessoa: “Matias quer água”. Aos dois anos começa a dizer “Eu quero água”. Quando se constrói como um ser separado, começa lentamente a separar-se emocionalmente.

Como nasce sua teoria?
Sinceramente, não sei quando nem como nasceu minha “teoria”, já que não a vivo como “teoria”, mas sim como uma prática constante. Basicamente através da observação de centenas de mães se relacionando com seus bebês. Foi muito revelador para mim, quando há cerca de 20 anos li o livro “A Enfermidade como Caminho”, de Dethlefssen e Dahlke, um médico e um astrólogo alemães, ambos junguianos. Comecei a investigar as teoria de Jung em relação à manifestação da sombra, e ao sentir que as crianças pequenas estavam tão involucradas dentro do campo emocional das mães, e vive versa, me ocorreu observar se o que manifestavam – e que eram muitas vezes incompreensíveis para as mães – poderia ser a expressão de situações emocionais que elas não poderiam reconhecer como próprias. É muito frequente que as mães não falem de si mesmas nas consultas, mas sim do que está acontecendo com seus filhos. E foi cada vez mais evidente para mim, que este “jogo” era permanente. Por exemplo, quando eu coordenava grupos de crianças e algum bebê estava muito inquieto, eu tentava induzir à mãe a um olhar interno, íntimo, até que “tocava” num ponto doloroso pessoal, de sua história primária. Mesmo que considerasse que o assunto estava “superado”, quando conseguia falar sobre o tema, o bebê automaticamente parava de chorar. E o grupo era testemunho desta “magia”. Mas não era nada mágico, era a mãe que se apropriava de uma parte de sua sombra, que o bebê estava, de outro modo, obrigado a manifestá-la. Aos poucos fui aprendendo a reconhecer mais rapidamente a linguagem dos bebês e crianças pequenas “fusionadas” ao campo emocional da mãe. Na realidade, o verdadeiro trabalho de busca quem o realiza é a mãe, o meu papel é só o de apoiar a busca genuína, porque cada indivíduo sabe profundamente o que lhe passa. Os bebês são seres sutis, por isso manifestam com total espontaneidade. Neste sentido são verdadeiros espelhos da alma.

Em seu livro você faz uma distinção entre a dor como algo necessário e positivo para o crescimento, e o sofrimento, desnecessário de destrutivo. Que diferença há entre um e outro?

Quando falo da diferença entre dor e sofrimento, me refiro ao parto em si mesmo. Hoje em dia quase todas as mulheres parem anestesiadas, em partos “induzidos” pela introdução de ocitonina sintética, para regular a duração e a intensidade das contrações. Em geral a mulher não é respeitada, não lhes permitem mover-se, caminhar, comer, ir ao banheiro; ela está atada à cadeira de parto que é terrivelmente incomoda, lhe acomete câimbras nas pernas, lhes rasgam, entram muitas pessoas, médicos e paramédicos, enquanto a mulher está com os genitais expostos, há pouca afetividade e nenhuma intimidade. O marido está atuando, fazendo de conta que é um bom pai moderno. É tanto sofrimento, que as mulheres, ao invés de pedirem contenção, abraços, calor, amor, silêncio, música, água, algo doce para a boca, suavidade... pedem aos gritos por anestesia. E recebem
Se pudéssemos imaginar um parto acompanhado verdadeiramente, com liberdade de movimento, na data verdadeira (ainda que “se atrase”), em intimidade, com uma ou duas pessoas do círculo mais íntimo, a dor seria então o veículo para o recolhimento, para a introspecção, para sair do mundo das formas e entrar no mundo sem limites, sem palavras, sem luzes... é um momento de abertura de consciência. Assim a dor é suportável, é necessária, porque nos permite “sair” do mundo racional, e só fora do mundo racional se pode parir em liberdade. As mulheres que parimos verdadeiramente em liberdade, é que podemos contar o que é o paraíso.

Não há modelos nem receitas sobre como ser mãe no Século XXI. Qual você crê que seja o maior desafio para as mulheres de hoje?

É certo que na há modelos. O que podemos chamar tradicional, ou seja o que viveram nossas avós, se refere à dona de casa que criou filhos e criou o marido. Muitas delas foram escravas dos desejos dos demais. Hoje em dia, alguma mulheres estamos num pólo aparentemente longínquo, trabalhamos todo o dia, ganhamos dinheiro, as vezes somos bem sucedidas, criativas, independentes. Quando aparece o primeiro filho, na minha opinião, se temos construída toda a nossa identidade no que chamo energia Yang – aspectos concretos do trabalho, dinheiro, relações sociais, etc - isto que nos traz o bebê não tem nada a ver com o “normal”... e tendemos a fugir para os espaços conhecidos: desesperadas para voltar a trabalhar, a ser que éramos antes. Para mim isto também é falta de liberdade interior.
É necessário revisar os acordos do casal anteriores ao nascimento do filho, quando somos capazes de apoiarmos-nos um ao outro e vive versa. Maternar é fundamentalmente conectar-se profundamente com a energia Yin, que é lenta, silenciosa, de tempos prolongados, redonda, quentinha, suave, interna, obscura, pegajosa... Navegar entre as duas energias é para mim um dos principais desafios para as mulheres modernas. Nem fugir do desconhecido, nem alheiarmo-nos do mundo, infantilmente como nossas avós. E saber que há outras pessoas ao redor para ocupar certos espaços por um tempo: o homem será a sustentação para que a mulher possas maternar. E se não há um homem maduro, haverá outras redes, família, amigos, grupos de apoio. Não se pode maternar sem sustentação. Não se pode maternar sem fusão emocional. Não se pode maternar sem buscar o próprio destino.

Publicado em UNO MISMO.

DESTAQUES

“Ainda que a separação física efetivamente se produza no parto, bebê e mãe seguem fusionados no mundo emocional. O bebê se constitui no sistema de representação da alma da mãe”.

“Se um bebê chora demasiadamente, se não é possível acalmá-lo nem amamentando-o nem aninhando-o, a pergunta seria: Porque chora tanto a sua mamãe? Se o bebê não se conecta, parece deprimido, quais são os pensamentos que inundam a mente de sua mãe? Se um bebê rechaça o seio, quais são os motivos que pelos quais a mãe rechaça o bebê?”

“Mesmo que considerasse que o assunto traumático estava “superado”, quando a mãe conseguia falar sobre o tema, o bebê automaticamente parava de chorar. Não era nada mágico, era a mãe que se apropriava de uma parte de sua sombra, que o bebê estava, de outro modo, obrigado a manifestá-la”.

“As mulheres que parimos verdadeiramente em liberdade, é que podemos contar o que é o paraíso”.

“Maternar é fundamentalmente conectar-se profundamente com a energia Yin, que é lenta, silenciosa, de tempos prolongados, redonda, quentinha, suave, interna, obscura, pegajosa... Navegar entre as duas energias, Yin e Yang, é para mim um dos principais desafios para as mulheres modernas”.

“Não se pode maternar sem sustentação. Não se pode maternar sem fusão emocional. Não se pode maternar sem buscar o próprio destino”.

PARIR EM LIBERDADE


“Meu segundo parto foi em Paris, com o doutor Michel Odent. Tinha data para o dia 3 de março, mas no dia 26 começaram as contrações. Como o trabalho de parto, que durou 24 horas, se prolongava, a parteira do hospital me tomou pelo braço e me levou correndo à sala “de partos selvagens”, como a chamavam eles: colchão no chão, almofadas, paredes de madeira, posters e um ...aparelho de som!
Uma mulher de cabelo grande e negro estava parada, sustentada por outra parteira, puxando. Ao ver nascer ao seu bebê, senti o cheiro do sangue fresco e me invadiu tal emoção que acelerou minhas contrações. Minutos depois terminei minha dilatação. Estava meio parada, mas a força do PUJO me fazia ficar acocorada, quase no chão. Vi aparecer meu bebê e o tomei com meus braços enquanto saía suavemente do canal de parto. O bebê nunca chorou. Só sorria. O coloquei no peito, eu chorando. Fio a força do parto de uma mulher desconhecida que me ajudou a “soltar as amarras de meu controle” e possibilitou a entrega.
Depois voltei caminhando para o quarto com meu bebê nos braços.”

PARA SABER MAIS
Laura Gutman é argentina, terapeuta familiar e escritora.

Tem onze livros publicado, em vários idiomas, além de incontáveis artigos sobre maternidade, paternidade, vínculos primários, desamparo emocional, adicções, violência e metodologias para acompanhar processos de busca pessoal. É colaboradora habitual de numerosas revistas na Argentina e Espanha.
Para difundir e aplicar suas idéias, Laura fundou e dirige “Crianza”, uma instituição com base em Buenos Aires, na qual funciona uma Escola de Formação Profissional para profissionais da saúde e educação, grupos de mães, um serviço de “doulas” (assistentes a domicílio) para mulheres puérperes, seminários breves para profissionais, terapias individuais e de casal e publicações sobre maternidade.
Viste seu site: www.crianza.com.ar

* Entrevista a Laura Gutman, extraída do site Espaço Saúde
Fonte de pesquisa: http://www.partosemmedo.com/
Se algum artigo neste blog estiver como "autoria desconhecida" e você souber informar, agradeço e farei a devida correção. Solicito também que ao extrair qualquer informação desta página seja adicionada à devida autoria ou endereço: http://pedagogiadoencontro.blogspot.com

Grata pelo Encontro.